Arquitetura, Design

Cinema: arquitetura e design em Hollywood

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Um dos campos mais criativos e exigentes é a indústria cinematográfica. Além dos grandes blockbusters (produções com grande orçamento e forte apelo comercial), o cinema tem estreita ligação com os campos de arquitetura, design e artes. E, de fato, há profissionais “deixando” as pranchetas de criação para se estabelecer na indústria do cinema. Afinal, este é um mercado que demanda uma equipe de profissionais especializados em diversas áreas e funções.

Formada em arquitetura pela PUC PR e design de móveis pela UTFPR, Daniela Medeiros é uma das profissionais que tem empregado seus conhecimentos no campo do cinema. Atualmente, atua como production designer e set designer nos Estados Unidos. Um dos recentes trabalhos como set designer ocorreu no filme “Thor: Ragnarok”, da Marvel, que acaba de estrear mundialmente.

Na variedade de funções existentes em uma equipe de cinema / filme, a atuação do production designer se destaca ao tornar cada filme uma obra única. Cabe a esse profissional, juntamente com o Diretor e Diretor de fotografia, cuidar de todo o visual do filme, criando conceitos visuais e liderando o departamento de arte. No Brasil, em geral, essa posição se chama “Diretor de Arte”. Além disso, esses profissionais costumam ter apoio dos set designers, que projetam, desenham os sets e, atualmente, também modelam os ambientes em 3D.

Com vários filmes no currículo, Daniela integra também a equipe de arte e set de outros blockbusters de Hollywood – já filmados e aguardando lançamento. Entre eles, a continuação de O Homem-Formiga, da Marvel, e Godzilla: King of Monsters, da Warner Brothers e Legendary Pictures. E para entender essa relação entre arquitetura e cinema, além dos desafios da carreira, a equipe do Habitus Brasil bateu um papo com Daniela Medeiros. Confira!

 

Daniela Madeiros trabalhou como set designer no filme “Thor: Ragnarok”, da Marvel

 

Conexões no cinema

Natural de Curitiba (PR), ela já trabalhou com importantes profissionais, como Dan Hennah (The Hobbit e Senhor dos Anéis) e Richard Hobbs (Mad Max). Entre os filmes que assinou Direção de Arte está “Icebox”, participante de importantes festivais pelo mundo, como Telluride, e que venceu como melhor curta-metragem no festival AFI Fest. Veja mais detalhes do seu trabalho no site do IMDb.

 

Formada em arquitetura, Daniela Medeiros atua como production designer e set designer nos Estados UnidosArquitetura, design, mobiliário e marcenaria. Como esses ‘mundos’ se encontram em Hollywood?

Esses elementos se conectam na criação de qualquer set de filmagem. Vamos imaginar uma sala de estar em 1880. A parte “arquitetura” pesquisa o estilo arquitetônico, cria o projeto do espaço e escolhe materiais e cores. O “design” busca elementos únicos para este espaço, como uma luminária ou escultura específica, que por algum motivo teve que ser criada para o filme. No caso do mobiliário, é preciso encontrar peças coerentes com a época ou reproduzi-los. E a marcenaria faz parte de quase todas estas etapas, possibilitando que tudo isso seja construído. Inclusive, a maioria dos sets são feitos de madeira e, posteriormente, revestidos com outros materiais.

Além da própria história, quais são os critérios utilizados para definir a linha de móveis e/ou objetos de um personagem?
São utilizados critérios como faixa etária, posição econômica e social, situação emocional e o que está acontecendo com aquela pessoa, naquele momento específico. Um exemplo! Digamos que o personagem seja um veterinário, pai solteiro, 35 anos, classe média. O ambiente poderia contar com elementos que remetam a paixão pelos animais e formação acadêmica, quem sabe fotos de animais de estimação, livros coerentes ao tema, etc. Mas também fotos do seu filho/filha posicionados com carinho.

Mas, agora, digamos que esse veterinário esteja passando por dificuldades financeiras ou tenha perdido a esposa recentemente. Nesse caso, ele poderia ter pilhas de contas a pagar sobre a mesa, a casa estaria mais bagunçada, pois sua mente esta preocupada com outras coisas. Fotos da esposa, rodeada por caixas de lenços, podem fazer parte do ambiente também. Esses detalhes devem ser estudados para cada filme e a cada cena.

 

Mão de obra, cores e orçamento no cinema

Como paleta de cores, local e mão de obra interferem na produção? E o orçamento? Isso é um limitador em Hollywood?
Orçamento é sempre um limitador. Existem projetos com mais recursos, mas as necessidades e cobranças são maiores. O local sempre influencia, desde o estúdio até o país em que será gravado o filme. O período histórico também se reflete dentro do departamento de arte. Significa que todos os elementos terão que ser pesquisados e as vezes recriados, pois não é possível encontrá-los facilmente ou em quantidade suficiente.

A mão de obra é outro componente extremamente importante, já que as habilidades são bem específicas. Não é preciso apenas ser pintor, é preciso saber recriar concreto, mármore ou infiltração na parede. Mais do que escolher mobiliário, é preciso saber criar o interior de um avião.

 

Paleta de cores

Dirigido por Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste traz uma rica paleta de cores. Inclusive, ela inspira criações relacionadas ao design de interiores. Confira a escala de cores no vídeo.

Integração no cinema

Há inúmeros filmes animados e com efeitos especiais. Nesse caso, como se dá o trabalho do Production Designer?
A integração do Production Designer nesta parte está cada vez mais forte, exigindo mais envolvimento a cada projeto. Hoje, muitos dos sets que posteriormente serão “animados” ou transformados com efeitos especiais são modelados pelo departamento de arte sob a supervisão do Production Designer. Esta integração é essencial para que os efeitos façam sentido.

Além disso, sets que serão posteriormente “aumentados” ou terão qualquer efeito de pós-produção necessitam ser parcialmente construídos, permitindo a interação com o ator.

Na verdade, existem sets e filmes completos que se resumem ao ator contracenando em um espaço completamente azul ou verde (cromaqui), que será substituído em pós-produção. Mas essa prática pode sair muito mais cara do que construir parte do set e permitir que muitas cenas sejam gravadas sem efeitos especiais. As produções têm buscado construir mais elementos, para cortar custos de pós-produção e permitir uma integração mais natural com o ator.

Abaixo, cena do filme Alice no País das Maravilhas (Disney, 2010), sob direção de Tim Burton.

 

Arquitetura, design, mobiliário e marcenaria. Esses elementos se conectam na criação de qualquer set de cinema

 

Pesquisa, arquitetura e design nos filmes

Quais os maiores desafios para a criação e composição de cenários nos filmes? E como funciona esse ritmo de pesquisa, estruturação das informações e adaptação aos personagens de cada filme/seriado?
O maior desafio é fazer com que os sets estejam prontos dentro do orçamento e no prazo estabelecido, considerando todas as mudanças que são requisitadas nesse processo. Mudanças repentinas no roteiro são muito comuns e diretores mudam de ideia conforme os conceitos e os ensaios acontecem. É um desafio considerar estas mudanças previamente e ter uma resposta rápida e eficaz.

O processo de pesquisa é como qualquer outro no meio artístico, porém, os temas muitas vezes saem do comum. A pesquisa vai de mobiliário utilizado em casas de estudantes nos anos 2000 ou interiores de ambientes residenciais na China, nos anos 1000 a.C., até possibilidades diversas de interpretar uma cidade em outro planeta. Muitas vezes os departamentos de arte contam com um pesquisador nos primeiros meses, para organizar materiais e selecionar com o Production Designer quais referências devem ser seguidas.

O papel do departamento de arte é convencer o espectador de que aquele mundo é possível e real, para que ele possa prestar atenção somente no personagem e na narrativa. Afinal, a história é o mais importante e o personagem deve sempre estar em evidência.

No tocante aos personagens, o ator/atriz precisa entender a arquitetura do espaço, cores e composições visuais, mas também analisar e entender se aquela configuração funciona na mentalidade do personagem. O espaço precisa “combinar” com a pessoa ou não fará sentido, e a magia estará comprometida. Não somente em relação ao estilo que aquela pessoa prefere, mas também sua realidade social, emocional, história de vida. É desta forma que conseguimos criar um ambiente com “camadas” de história.

 

Filme: Gravidade

Abaixo, cena do filme Gravidade (Warner Bros, 2013). Vencedor de sete estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Diretor, o filme reúne suspense e drama, com Sandra Bullock e George Clooney como dois astronautas em um ônibus espacial.

 

A tríade do cinema é composta pelo diretor, diretor de fotografia e o production designer (diretor de arte)

 

O dia a dia na produção do cinema

Quais são as suas principais ferramentas de trabalho?
O trabalho de um Production Designer (ou Diretor de Arte no Brasil) é muito parecido com o de um arquiteto ou designer em vários aspectos. As ferramentas de trabalho são aquelas ligadas à criação e execução de um conceito previamente estabelecido. Pensando em ferramentas práticas, posso citar softwares de computação, como SketchUp, Rhino, Solidworks ou Maya, para pré-visualização dos ambientes.

Para detalhamento técnico temos o Vectorworks e AutoCad. Mas, em geral, estes trabalhos acabam no escopo dos diretores de arte-assistentes e também dos designers de set. Softwares como Photoshop e InDesign são usados na criação de ilustrações e apresentações. Além disso, temos instrumentos de desenho e ilustração à mão, sempre úteis na fase de criação, assim como livros para pesquisa de referências.

 

Como o portfólio profissional de vocês é avaliado?
Depende da posição dentro do departamento de arte que o profissional ocupa. Um Production Designer (Chefe de departamento) precisa mostrar conhecimentos visuais, de composição, conceituação e criatividade, além de liderança e muita habilidade política para discutir e negociar com diretores e produtores.

É importante mostrar habilidade em conectar todos os itens que compõe a arte de um filme. Entre elas, direção de arte, decoração, objetos de cena e também sua integração posterior com efeitos especiais. Mas isso também varia conforme o tamanho do projeto.

Ilustradores apresentam portfólio de imagens, com diferentes estilos de ilustrações. Set designers, por sua vez, demonstram exemplos de desenhos construtivos, com detalhes em tamanho real e imagens renderizadas.

 

Daniela Medeiros explica como funciona a atuação do set designer na indústria do cinema

 

Production Designer

Quais são os desafios diários da atuação?

A parte boa é o dinamismo da profissão. Cada trabalho é outro mundo a ser pesquisado e criado, com outros personagens a serem analisados. Além disso, participar do projeto de espaços incríveis e em pouco tempo vê-los construídos e iluminados é fantástico. Mas é uma profissão que ainda requer mais reconhecimento. Ainda acontece de profissionais serem menosprezados e, no caso de filmes independentes, não serem remunerados como merecem. Além disso, as horas são pesadas e os projetos podem ser fisicamente e mentalmente desgastantes.

 

Como se dá a divisão de tarefas nas produções de cinema?

A tríade do cinema é composta pelo diretor, diretor de fotografia e o production designer (diretor de arte). Juntos, os três são responsáveis por criar o look do filme. Todos os elementos em frente à câmera são responsabilidade do departamento de arte, encabeçado pelo Production Designer. Ou seja, design e criação de sets, decoração dos sets e obtenção de objetos de cena – aqueles que são manuseados pelos atores.

O Diretor de fotografia, dentre suas responsabilidades técnicas, fica responsável pela iluminação do set, definir enquadramento e gravação do filme. Além disso, este profissional está diretamente ligado as definições visuais e de correção de cor. Já o Diretor é responsável por unir todas as peças do jogo até o lançamento do filme. Isso inclui arte, fotografia, efeitos especiais, atores, roteiro, pós-produção, etc.

Juntos, os três profissionais definem ainda os conceitos visuais do filme e parâmetros ou regras visuais a serem seguidas. A comunicação desses departamentos é imprescindível, pois qualquer incoerência visual pode prejudicar o filme. A escolha de um material que não funciona com a luz necessária ou a iluminação excessiva de um set. E se essa “ilusão” falha, o espectador não acredita no mundo que o time de produtores está criando.

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